A Disney disponibilizou online seu curta Paperman, indicado ao Oscar de Curta de Animação. O filme, de 6 minutos, conta a história de um jovem solitário que conhece uma linda mulher em uma estação de trem em seu caminho para o trabalho. Como não há diálogos, não há problemas em compreender o que acontece em cena, então gaste um tempinho se deliciando e desfrutando de uma obra de arte. Em seis minutos, o curta fala muito mais ao coração do que muito filme romântico meloso que Hollywood vive fazendo. Assista e veja se não estou falando a verdade:

Em 11 de setembro de 2001, o mundo inteiro ficou em choque por causa de uma série de atentados terroristas em pleno solo americano. Tendo sido confirmado o nome do homem responsável por planejar os ataques e articular dezenas de células terroristas em vários lugares do mundo, Osama Bin Laden, a CIA - Central de Inteligência Americana - deu início à maior caçada humana da história. Todos queriam a cabeça do líder da Al Qaeda em uma bandeja, a resposta apropriada a um ataque tão covarde e severo. Depois de dezenas de tentativas frustradas de capturar e matar o terrorista, ninguém mais esperava que algum dia Bin Laden fosse encontrado. Isso até maio de 2011, quando o presidente americano Barack Obama anunciou que uma equipe de S.E.A.L.s da marinha americana, denominada Team 6, havia invadido uma fortaleza em Abbottabad, Paquistão, e assassinado Osama Bin Laden, o homem mais procurado do mundo.
Voltamos a 2009, quando a cineasta Kathryn Bigelow levou para casa 6 Oscar por seu filme, Guerra ao Terror, que mostra uma equipe antibombas trabalhando em pleno Afeganistão ocupado. Logo que começaram as especulações sobre qual seria seu próximo projeto, foi anunciado que a diretora faria um filme sobre a caçada fracassada de uma década a Bin Laden, que seria chamado de Kill Bin Laden [Matar Bin Laden]. Isso até o momento em que o terrorista foi morto. O roteiro, de Mark Boal (que também trabalhou no roteiro de Guerra ao Terror), teve que inteiramente reescrito, e seu clímax óbvio seria os tensos momentos da operação que culminariam na morte de Bin Laden.
Bigelow tinha nas mãos uma história que provavelmente qualquer cineasta com algum juízo desejaria intensamente poder filmar. A questão era se ela seria capaz de transformar em filme um tema tão polêmico quanto desejado: a guerra ao terror que já havia sido retratada por ela mesma, sob o ponto de vista dos soldados no fronte de batalha.
Pelo que é visto em cena, o desafio foi alcançado. A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, EUA, 2012) é tenso como um filme assim deve ser e não se furta a mostrar de maneira crua e realista cenas de tortura, nas quais muitas informações preciosas foram obtidas de homens ligados à Al Qaeda. Estas mesmas cenas têm sido alvo de polêmica nos EUA, o que já era esperado, se considerarmos que o atual governo afirma ter extinguido técnicas de tortura para obtenção de dados dos prisioneiros. De fato, o filme mostra tortura apenas durante o governo Bush, com prisioneiros sendo submetidos a privação de sono e outras técnicas cruéis que não sei denominar aqui. Não sou especialista militar nem nada do gênero. O que posso dizer é que o negócio é feio.
A cena da operação que matou Bin Laden é a mais eletrizante de todas, sendo mostrada quase em tempo real, durando mais de 25 minutos. Só ela já vale o preço do ingresso.
À parte dessas cenas, temos a presença irrefutável de Jessica Chastain (indicada ao Oscar pelo segundo ano consecutivo), que vive a protagonista agente da CIA, Maya, cuja carreira na agência foi inteiramente dedicada à caçada humana a Bin Laden. Sua obsessão é tão forte e intensa, que a agente chega a ser intransigente na tentativa de se fazer crível perante seus superiores. Trata-se de uma personagem que não pode ser ignorada ou esquecida. É de um simbolismo notório a última cena de Maya, já ao fim de 2 horas e meia de projeção, quando a morte de Bin Laden é confirmada e ela, como heroína nacional que não pode ser conhecida do público, embarca em um avião militar e o piloto pergunta para onde ela quer ir. Não há resposta. Não há para onde ir, pois toda a vida que ela conheceu durante uma década acaba de se extinguir. Restam apenas lágrimas.

A Hora Mais Escura estreia no Brasil em 15 de fevereiro.

A Hora Mais Escura (2012) on IMDb
Ator mediano que fez escolhas, no mínimo, duvidosas, Ben Affleck tornou-se um cineasta que, a cada filme, mostra-se mais conhecedor de seu ofício. É verdade que na primeira vez em que apareceu para o público, eles estava no palco do Kodak Theater recebendo seu Oscar pelo roteiro original de Gênio Indomável, ao lado do então futuro astro Matt Damon. Este simples fato não pode ser ignorado, ao pensarmos na capacidade criativa do cara que teve a infelicidade de estragar a franquia Demolidor, naquele filme horrendo do qual nem gosto de lembrar. Sem falar naquele tal "filme" que ele fez com Jennifer Lopez, Contato de Risco, tão ruim que consegue ter nota 2,4 no IMDB. Ugh.
Mas Affleck conseguiu se redimir. Depois de Medo da Verdade (2007) e Atração Perigosa (2010), sempre bem recebidos por crítica e público, o ator-diretor recuperou a confiança de um mercado impiedoso e conseguiu se manter no topo.
Em seu terceiro filme, Argo (EUA, 2012), Affleck desfila sua habilidade em criar cenas marcantes e carregadas de suspense, sem jamais se entregar a soluções fáceis. Ajuda também o fato de ter uma história daquelas que, se não fossem reais, ninguém acreditaria. Em 1979, em meio a uma revolução que depôs o Xá e restabeleceu o Aiatolá Khomeini ao poder no Irã, milhares de pessoas invadiram a embaixada americana no país e tomaram vários diplomatas como reféns, em uma situação que duraria 444 dias. Antes, porém, de acontecer a invasão, seis americanos conseguiram fugir do prédio da embaixada e se refugiar na sede diplomática do Canadá. Sem poderem sair, sob o risco de serem presos e executados como espiões, eles estavam em uma situação aparentemente sem solução visível. Nos EUA, o agente da CIA Tony Mendez (Ben Affleck) tem uma ideia bizarra para tentar resgatar os seis americanos da embaixada do Canadá: ele entraria no Irã como um produtor de cinema canadense à procura de locações para seu filme de ficção científica, e tiraria seus compatriotas do país como se fossem membros da equipe de produção. Para tornar a história a mais crível possível, era preciso dar início a um processo de filmagem de verdade, com um roteiro e uma empresa responsável. Assim foi. Usando o auxílio de dois produtores de Hollywood, Lester Siegel (Alan Arkin, indicado ao Oscar de Ator Coadjuvante) e John Chambers (John Goodman), Mendez fez toda a Meca do cinema acreditar que "Argo", um roteiro de ficção científica à la Star Wars que circulava em Hollywood há algum tempo, finalmente veria a luz do dia. O disfarce perfeito para ludibriar o exército iraniano e resgatar os seis americanos sem um único tiro disparado.
Os melhores diálogos do filme pertencem ao personagem de Alan Arkin, que funciona como o arquétipo do cara experiente de Hollywood que conhece todos os caminhos para criar um filme de mentira em uma cidade onde todos mentem para viver. A metalinguagem, entretanto, não é o único ponto forte de Argo. Affleck consegue criar uma ambientação fiel à época retratada, e as conquistas referentes à semelhança do elenco com as pessoas reais representadas são surpreendentes.
Argo foi indicado a 7 Oscar: Filme, Edição, Edição de Som, Mixagem de Som, Ator Coadjuvante, Trilha Sonora Original e Roteiro Adaptado e já está sendo lançado em DVD no Brasil.
Nada mais admirável do que ver um artista com uma capacidade tão grande de se reinventar, e Argo é a terceira evidência que Ben Affleck apresenta ao mundo de ser um artista de verdade, um cineasta de verdade, que pega a história de um filme falso e a transforma em cinema de verdade.

Argo (2012) on IMDb
Hoje inicio uma nova seção: PopLinks! São as minhas dicas de sites interessantes com coisas legais sobre cinema, música, literatura, arte, humor e tudo mais que faz da cultura algo pop. Chega mais e vamos ver os links dessa semana:




E se, ao invés de uma guerra entre humanos e robôs, fosse uma raça alienígena que se deparasse com um ataque de robôs que eles mesmos criaram? Esta é a premissa de R'ha, curta-metragem de ficção científica dirigida e animada por Kaleb Lechowski, um jovem de 22 anos que poderia ensinar uma ou duas coisinhas a Hollywood.

R'ha é um curta que merecia a injeção de uma boa grana para que a (ótima) ideia pudesse ser desenvolvida. Enquanto isso não acontece, a gente aproveita o que já foi feito:

Quando uma nova adaptação do clássico romance do russo Leo Tolstói, Anna Karenina, foi anunciada, a sensação era a de mais do mesmo, uma tentativa clara de utilizar um material consagrado para realizar um filme pronto para os prêmios da Academia.
Mas depois que se soube que o diretor do projeto era Joe Wright, as desconfianças começaram a desaparecer gradualmente. Wright é desses cineastas que ainda não tiveram o reconhecimento merecido, por ser um artista com ideias diferentes em cada um dos seus filmes, que nunca são parecidos um com o outro. Mesmo em seu retorno aos romances épicos - ele fez o filme de ação Hanna, com trilha sonora dos Chemical Brothers - não existe fórmula pré-fabricada para suas produções.
A prova disso está em sua versão de Anna Karenina, com Keira Knightley no papel-título e Jude Law como o marido traído que, completamente apaixonado por sua mulher, resigna-se à condição de esposo não mais amado pelo objeto de sua afeição. Wright não se contenta em tornar a obra original em algo palatável ao público do século XXI; leva tudo a níveis ainda maiores, tudo por causa de suas escolhas narrativas.
O filme é quase inteiramente narrado dentro de um teatro, que o diretor construiu do zero em Shepperton, Inglaterra. A abordagem experimental é fundamental para o cineasta expressar sua interpretação da história. Assim, rinque de patinação, estações de trem e estábulos são todos montados no alto do teatro, acima do palco; e cenários-chave da narrativa, como o baile onde Anna conhece o Conde Vronsky, a casa do ministro Karenin, e até uma corrida de cavalos acontecem no palco do teatro. O cenário muitas vezes é alterado na frente das câmeras, enquanto os diálogos acontecem, recurso que lembra muitas vezes os filmes de Baz Luhrmann (Romeu + Julieta, Moulin Rouge), embora com uma fluidez que interfere muito menos na atenção do espectador, que não perde o foco dos personagens em cena. Até mesmo cenas externas acontecem de uma maneira artificial, usando trens de brinquedo e casas de bonecas.
Mas não se engane: Anna Karenina não é Dogville. Os produtores tinham muito dinheiro para gastar e aqueles elementos que enchem os olhos do espectador estão lá: o figurino exuberante e perfeitamente equilibrado com a história, a fotografia que alterna momentos de cores em profusão e cenas sombrias, e as atuações estelares. Neste ponto, entretanto, o diretor comete um erro grave: a escolha de parte do elenco, especialmente no ator escalado para o papel de Conde Vronsky, amante de Anna. Aaron Taylor-Johnson  (o Kick-Ass em pessoa) não tem o porte físico, muito menos a maturidade que justifique a escolha para o papel. É impossível acreditar que Anna Karenina se apaixonaria perdidamente por um garoto daquele, com um cabelo tingido de loiro e ar de moleque que mal saiu das fraldas.
Apesar disso, Anna Karenina ainda não tem seu saldo final inteiramente comprometido. Keira Knightley mostra-se uma atriz cada vez melhor e Jude Law é o perfeito marido traído conformado. Mas ainda o arco de personagens mais sólido do filme é o que gira em torno de Levin (Domhnall Gleeson) e Kitty (Alicia Vikander), esta a princesa rejeitada por Vronsky, que reluta em aceitar o amor de Levin, um fazendeiro completamente entregue ao amor pela princesa. Pertencem a ele as únicas cenas em locações reais, fora do teatro. É a forma que o diretor encontrou para contrapor a artificialidade vivida pela aristocracia russa - representada por Anna e seu círculo social - e a naturalidade de uma vida mais próxima da realidade, defendida por Levin.
No fim, tem-se a sensação de novidade, o que é um verdadeiro triunfo, considerando o fato de ser a adaptação de uma obra com mais de 100 anos de idade.

Em tempo: Anna Karenina estreia no Brasil em 15 de fevereiro.

Anna Karenina (2012) on IMDb
Sendo um celeiro de algumas das melhores ideias de Hollywood desde seu início, a animação stop-motion faz parte da história da sétima arte há muito tempo. Todo mundo tem um filme stop-motion que guarda com carinho no coração. Nos últimos anos, porém, parecia que não havia futuro para esta técnica centenária, por causa de todo o domínio da animação em CGI, que controla quase todo o circuito exibidor, com companhias tão poderosas quanto a Pixar (Valente) e a Blue Sky (A Era do Gelo). Apesar de tudo parecer perdido, ainda alguns estúdios têm realizado, de forma artesanal, filmes marcantes, desses que parecem realmente obras de arte, tamanho o esforço envolvido na realização de cada produção.
Afinal de contas, pense no trabalho que dá criar um cenário tridimensional em miniatura, além de moldar cada personagem com as próprias mãos, utilizando materiais variados! Isso sem falar na quantidade de paciência necessária para colocar os personagens na posição desejada, fotografar, mudar cada personagem de posição, fotografar, e fazer assim até conseguir filmar 30 segundos da cena prevista no roteiro, isso durante um dia inteiro!
O fato é que, normalmente, filmes assim são tão bonitos de se ver, que é preciso ser muito insensível (ou ignorante mesmo) para não reconhecer seus realizadores como verdadeiros artistas que mantêm viva uma era há muito esquecida no cinema.

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Mas a lista de indicados ao Oscar 2013 aponta para uma tendência interessante: enquanto a maioria das animações produzidas em CGI parecem prezar muito mais pela qualidade da imagem do que pela história que está sendo contada, os filmes em stop-motion mantêm o equilíbrio perfeito entre roteiro e esmero visual.
Não é por acaso que, dentre os cinco filmes indicados na categoria Melhor Filme de Animação, três são produções em stop-motion.

Frankenweenie - É, sem dúvida, o melhor filme de Tim Burton desde Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, de 2003. O diretor se redime de seu péssimo Sombras da Noite, também lançado ano passado, com esta releitura de seu primeiro filme, um curta animado homônimo, que conta a mesma história. Desta vez a história de um menino inventivo que traz seu cãozinho, Faísca, de volta à vida, como um Dr. Frankenstein moderno e mais afetuoso, ganha novos personagens e se torna um longa, uma fábula sensível - embora assustadora para crianças pequenas - e comprometida com o bom cinema. Isso sem falar na escolha ousada de fazê-lo inteiramente em preto e branco, mantendo a essência do curta original. O filme também lida com temas atuais, como os limites da ciência e a tão conhecida paranoia humana perante o desconhecido.
Frankenweenie (2012) on IMDb

Piratas Pirados! - É a volta do estúdio Aardman (A Fuga das Galinhas, Wallace e Gromit) ao stop-motion, depois de sua incursão, não muito bem sucedida, no CGI, Operação Presente. Conta a saga do Capitão Pirata (voz de Hugh Grant) em busca do prêmio de Pirata do Ano. Utilizando o melhor da técnica para criar cenas aquáticas, o filme traz um universo crível e engraçado para as crianças, mas o roteiro, embora faça algumas piadas que só adultos poderiam entender, deixa a desejar. A história é, muitas vezes, infantil demais e dificilmente o filme poderá ser o vencedor da estatueta dourada. Mesmo assim, a indicação mostra que perfeição técnica ainda é algo que mereça ser reconhecido.
Piratas Pirados! (2012) on IMDb

ParaNorman - O melhor dos três filmes, a produção do estúdio Laika (de Coraline e o Mundo Secreto e A Noiva-Cadáver) brinca com os filmes de zumbi, fazendo uma homenagem muito bem-humorada às produções B dos anos 1950. Norman é um menino diferente, que tem a habilidade de falar com os espíritos das pessoas que já morreram. Incompreendido pelo pai e maltratado na escola, ele não tem nenhum amigo além de sua avó - mas ela já morreu. A situação dele muda quando ele é o único que pode salvar a cidade da invasão de mortos-vivos, amaldiçoados por uma bruxa que morreu há 300 anos. Embora o filme não seja inteiramente em stop-motion - como todos os filmes desta lista, há elementos em CGI - ParaNorman mistura ingredientes capazes de fazer crianças e adultos se divertirem de igual modo. Mas, atenção: crianças muito pequenas podem se assustar, ainda que não tanto quanto em Frankeweenie.
ParaNorman (2012) on IMDb

Todos os três filmes aqui citados têm qualidades que fazem deles ótimos programas para juntar a família e desfrutar de alguns momentos bem divertidos. Boa diversão!
James Bond, criação do romancista inglês Ian Fleming em 1953 e presente em inúmeros livros desde então, completou 50 anos no cinema ano passado. Para comemorar a data, foi lançado 007 - Operação Skyfall, o 23º filme da franquia, a segunda mais lucrativa da história, perdendo apenas para a série de certo bruxinho adolescente. Com tamanha longevidade e a possibilidade de inúmeros filmes, uma vez que não existe um único ciclo de histórias possíveis para o personagem, o agente do MI6 ainda terá muito o que fazer em anos vindouros. Ainda mais se depender da inacreditável bilheteria de Skyfall, que superou a marca de 1 bilhão de dólares, sendo o mais lucrativo filme de toda a franquia.
Nas mãos de Sam Mendes (Beleza Americana, Estrada Para Perdição) o personagem ainda ganhou o primeiro filme considerado autoral de toda a série. Isso porque o diretor teve uma liberdade criativa jamais experimentada por outros diretores que assinaram filmes anteriores. Mendes está longe de ser um diretor por encomenda, daqueles que se deixam levar pela vontade de produtores ansiosos por encherem ainda mais seus cofres.
Novamente vivido por Daniel Craig, Bond continua com aquele ar de realismo tão na moda depois da trilogia Bourne, mas mantendo o charme que fez a fama do personagem: uma atração quase irresistível para as mulheres, o fino humor inglês, os gadgets tecnológicos (com toques realistas, é claro) e a paixão por carros tornados icônicos, graças à série. E desde que os produtores decidiram revitalizar o personagem, tornando-o mais próximo do século XXI, Skyfall acaba sendo o melhor filme. Aliás, arrisco-me a afirmar que este é o melhor 007 que já assisti. Todos os elementos característicos de Bond estão lá, mas Sam Mendes ainda acrescenta toda a dramaticidade e tensão presente nos seus filmes anteriores, especialmente Estrada Para Perdição. Isso não quer dizer que o diretor deixou de lado os detalhes que tornam 007 tão divertido. Estão lá as pequenas extravagâncias da série, como a ilha-fortaleza do vilão, os diálogos engraçadinhos e até os inofensivos flertes entre Bond e Moneypenny (Naomie Harris), finalmente de volta à franquia. Mas tudo isso vem envolto em uma ironia metafísica, como pouco (ou nunca) se viu antes. Em um certo momento, por exemplo, quando o novo Q (Ben Whishaw) entrega o equipamento de Bond e este constata que trata-se de somente uma pistola que só ele pode usar e um rádio, pergunta: "Só isso?" A resposta de Q: "O que você esperava, uma caneta explosiva? Não fazemos mais isso." Uma ironia que só poderia fazer bem ao filme.
Vamos à trama: Bond parte em uma missão para recuperar uma lista que contém os nomes de todos os agentes da OTAN infiltrados em organizações terroristas, mas acaba se deparando com um antigo agente do MI6, Silva (Javier Bardem, espetacular), desejoso de vingança contra M (Judi Dench). Para derrotar seu nêmese, 007 se defrontará com seu próprio passado, o que poderá pôr em risco o sucesso da missão.
Ao incluir elementos de origem no roteiro, Operação Skyfall traz um frescor inesperado - mas muito bem-vindo - à série, que nunca antes havia se dedicado a esclarecer fatos do passado de James Bond. Com isso, a franquia estabelece uma mitologia que vai além dos filmes de "uma-missão-só" que antes existiam. Como em uma boa e moderna série cinematográfica, cada filme anterior estabelece itens que podem aparecer mais ampliados em episódios futuros, tornando a história mais consistente.
Aí está a maior força de Skyfall: a capacidade de trazer novos fãs à jornada de James Bond, sem que os antigos fãs se sintam excluídos da diversão.

007 - Operação Skyfall (2012) on IMDb
Charlie (Logan Lerman, de Percy Jackson e o Ladrão de Raios) é um garoto que está experimentando a glória e a agonia de crescer. Lutar contra uma doença mental e passar pela adolescência ao mesmo tempo não é nada fácil. Ainda mais depois que seu melhor - e único - amigo morreu, ele se fechou em seu próprio mundo, contentando-se em se manter invisível na nova experiência do começo do período de Ensino Médio, a tão temida high school americana, que pode ser o inferno para jovens como ele, introspectivo e tido como weird (esquisito) pelos colegas de escola. Sua alegria é estar em família e escrever cartas para o amigo morto, que é sua única forma de interação e compreensão do mundo fora da bolha criada por ele, na qual vive confortavelmente, ao menos aparentemente. Isso tudo até ele conhecer Patrick (Ezra Miller, de Precisamos Falar Sobre o Kevin) e Sam (Emma Watson, indo muito bem depois da série Harry Potter), irmãos "emprestados", que têm um jeito peculiar de lidar com a vida e com a entrada na idade adulta. Patrick é homossexual e mantém um relacionamento secreto com o garoto mais popular da escola; Sam é uma jovem brilhante, que sonha em entrar em uma boa universidade, mas fracassada nos relacionamentos, ao amar caras que são verdadeiros cafajestes. Ambos são veteranos, enquanto Charlie ainda é calouro no Ensino Médio, mas ainda assim os três constroem uma amizade que marcará suas vidas para sempre.
As Vantagens de Ser Invisível é o segundo filme de Stephen Chbosky, desta vez adaptando seu próprio romance homônimo, aclamado pela crítica. Antes, o diretor/roteirista já havia escrito o roteiro da fracassada adaptação para as telas do musical Rent - Os Boêmios, que apesar de bons momentos carecia de coesão narrativa, e participado da criação da série Jericho, que durou apenas duas temporadas, embora fosse amada pelos (poucos) fãs. Desta vez Chbosky finalmente acertou a mão. Provavelmente por apego à sua própria obra, ou talvez por causa do tom quase autobiográfico da trama - que se passa no começo da década de 1990. O filme não se deixa cair nas armadilhas comuns das produções voltadas para adolescentes, repletas de clichês e canções descartáveis. Aliás, no quesito trilha sonora o filme é um verdadeiro achado, daqueles que fazem a gente querer parar tudo e baixar todas as músicas. De David Bowie ("Heroes"), passando por Air Supply ("All Out of Love"), Crowded House ("Don't Dream It's Over"), New Order ("Temptation") e chegando em Morrissey ("Seasick, Yet Still Docked") e The Smiths ("Asleep"), cada canção parece feita especialmente para o filme, sendo "Heroes" aquela que mais traduz todas as esperanças e ilusões vividas na adolescência.
Ignorado no Oscar, As Vantagens de Ser Invisível tem todas as condições de se tornar um daqueles filmes queridos de toda uma geração, como O Clube dos Cinco foi para a turma da década de 1980. Um clássico contemporâneo para uma geração que ainda se sente infinita, e que ainda se ressente de experimentar o amor verdadeiro. "Nós aceitamos o amor que pensamos merecer" é o mote que permeia todo o filme, gerando uma reflexão que ultrapassa as barreiras do cinema e prova que, afinal de contas, a arte deve fazer parte da nossa própria vida.

As Vantagens de Ser Invisível (2012) on IMDb
Os indicados ao Oscar 2013 acabaram de ser anunciados, em uma apresentação comandada por Seth MacFarlane (Ted) e Emma Stone (O Espetacular Homem-Aranha). Aqui estão as categorias mais aguardadas.

Lincoln, de Steven Spielberg, concorre em 12 categorias, incluindo Filme, Direção e Ator. Como surpresas este ano podemos considerar as indicações de Emmanuelle Riva - por Amor - e Quvenzhané Wallis - por Indomável Sonhadora -, esta a mais jovem indicada em todos os tempos, com apenas 9 anos.

Para ver todos os indicados, clique AQUI.

Melhor Filme

Amor
A Hora Mais Escura
O Lado Bom da Vida
Argo
Os Miseráveis
Indomável Sonhadora
Lincoln
As Aventuras de Pi
Django Livre

Melhor Ator

Bradley Cooper - O Lado Bom da Vida
Joaquin Phoenix - O Mestre
Daniel Day-Lewis - Lincoln
Denzel Washington - O Voo
Hugh Jackman - Os Miseráveis

Melhor Atriz

Jessica Chastain - A Hora Mais Escura
Quvenzhané Wallis - Indomável Sonhadora
Jennifer Lawrence - O Lado Bom da Vida
Naomi Watts - O Impossível
Emmanuelle Riva - Amor

Melhor Ator Coadjuvante

Alan Arkin - Argo
Robert De Niro - O Lado Bom da Vida
Philip Seymour Hoffman - O Mestre
Tommy Lee Jones - Lincoln
Christoph Waltz - Django Livre

Melhor Atriz Coadjuvante

Amy Adams - O Mestre
Sally Field - Lincoln
Anne Hathaway - Os Miseráveis
Helen Hunt - As Sessões
Jacki Weaver - O Lado Bom da Vida

Melhor Filme de Animação

Valente
Frankenweenie
ParaNorman
Piratas Pirados!
Detona Ralph

Melhor Direção

Michael Haneke - Amor
Steven Spielberg - Lincoln
Ang Lee - As Aventuras de Pi
Benh Zeitlin - Indomável Sonhadora
David O. Russel - O Lado Bom da Vida

Melhor Roteiro Adaptado

Argo
Indomável Sonhadora
As Aventuras de Pi
Lincoln
O Lado Bom da Vida

Melhor Roteiro Original

Amor
Django Livre
O Voo
Moonrise Kingdom
A Hora Mais Escura


Em janeiro de 2004, um tsunami varreu horrivelmente a costa sudeste da Ásia, atingindo milhares de pessoas e causando a morte de outras milhares. Até o ano passado, somente um filme havia abordado o tema: Além da Vida, dirigido por Clint Eastwood, que, contudo, colocou a tragédia como mais um elemento do filme com tons espiritualistas, que contava três histórias diferentes. Desta vez o evento cataclísmico assume o centro da ação em O Impossível (Lo Imposible, Espanha, 2012), do diretor espanhol Juan Antonio Bayona. Isso mesmo, o filme é uma produção espanhola, embora seja falada em inglês e estrelada por dois atores do alto escalão de Hollywood, Ewan McGregor e Naomi Watts.
A história, baseada em fatos verídicos acontecidos com uma família espanhola (transformada em inglesa no filme. Decisão comercial? Oh yeah!), não traz nenhum elemento novo, original. Ainda assim, é impossível (com o perdão do trocadilho) não se comover com as cenas marcantes realizadas pelo diretor espanhol. O tsunami é mostrado em todo seu horror e majestade, chegando ao limite do que o cinema moderno é capaz de fazer. Mas toda a tecnologia utilizada em prol dos efeitos especiais de primeira seria em vão se não fosse o elenco, que desfila enorme talento com atuações viscerais. McGregor e Watts estão espetaculares nos papéis de marido e mulher que acabam separados pela tragédia e precisam lutar para viver e manter os filhos vivos. A propósito, os atores-mirins que fazem os papéis de filhos do casal inglês, Tom Holland (Lucas), Samuel Joslin (Thomas) e Oaklee Pendergast (Simon) surpreendem e não deixam cair o clima de emoção que toma conta da projeção em momentos cruciais do filme, que emociona sem jamais apelar para lágrimas forçadas, daquelas experimentadas, por exemplo, em Marley e Eu.
O Impossível é puro espetáculo cinematográfico, desses filmes que permanecem na cabeça da gente por muito tempo. Afinal de contas, o instinto de sobrevivência é algo que todos temos, e O Impossível é uma verdadeira homenagem ao espírito humano.

O Impossível (2012) on IMDb