Versão do clássico conto de fadas é prova de que o cinema ainda pode ser puro e belo

Nada de revisionismo. Esqueça as releituras irônicas e debochadas, ou as versões feministas e sombrias dos contos de fadas que embalam os sonhos da humanidade há séculos: Cinderela (Cinderella, EUA, 2015), a versão com atores da Disney, é simplesmente uma linda história, que mantém a essência da animação clássica do mesmo estúdio.
Dirigido pelo mais shakesperiano dos diretores contemporâneos, Kenneth Branagh (de Thor), a história não poderia estar em mãos melhores. O cineasta traz ao filme o toque de pureza e doçura necessário a um conto do gênero, ao mesmo tempo em que apresenta elementos dignos do bardo inglês, autor de peças imortais, como Hamlet e Romeu e Julieta. Quem critica Branagh por aceitar fazer Cinderela, por achar que o cineasta tem muito mais densidade quando adapta Shakespeare, certamente esquece que o clássico dramaturgo é também o autor de Sonho de uma noite de verão e Muito barulho por nada, obras igualmente magistrais, apesar de leves.
O equilíbrio perfeito de tais elementos, leveza e rispidez, é um dos segredos para Cinderela ser tão bem sucedido. Mas há muito mais. O elenco é notável, especialmente Lily James (Downton Abbey). A atriz preenche a tela com graça e beleza, iluminando cada frame em que está presente. A química entre ela e Richard Madden (o Robb Stark de Game of Thrones) é fulgurante; torna-se quase impossível não se hipnotizar pela cumplicidade emanada pelo casal. Igualmente brilhante em cena está Cate Blanchett, no papel da Madrasta, não que isso seja alguma surpresa, afinal de contas, a atriz consegue imprimir dramaticidade e profundidade no mais simplório dos papéis.
Tudo em Cinderela é reluzente e encantador. O design de produção, comandado por Dante Ferretti, e o figurino, nas mãos da lenda viva Sandy Powell, ganhadora de três Oscar, são tão geniais que é quase impossível não haver indicações para o filme nestas categorias do maior prêmio do cinema.
Com Cinderela a Disney prova que é possível fazer cinema verdadeiro com fins comerciais, sem precisar apelar para releituras engraçadinhas e, por vezes, bobocas. Se cinema é magia, como diz o velho clichê, em Cinderela o ditado é literal.

O cenário de Bloodline, nova série do serviço de streaming Netflix, é paradisíaco. A trama se passada em Islamorada, na Flórida, onde o sol brilha o ano inteiro, para onde milhares de turistas se dirigem todos os anos. Já o clima do drama, cujos 13 episódios da primeira temporada estão disponíveis desde 20 de março, não poderia ser menos ensolarado.
A série é protagonizada pela família Rayburn, donos de uma pousada na ilha, e que têm também uma ótima reputação perante a comunidade. Tudo começa na comemoração dos 45 anos de existência da pousada, quando toda a família se reúne, juntamente com outros convidados, para celebrar. Estão lá os filhos, John (Kyle Chandler), Meg (Linda Cardellini), Kevin (Norbert Leo Butz) e o recém-retornado ao lar Danny (Ben Mendelsohn), além dos pais Robert (Sam Shepard) e Sally (Sissy Spacek). Tudo parece perfeito e todos parecem felizes, mas a volta de Danny a Islamorada traz à tona um passado terrível, sobre o qual a família evita falar.
A história vai e vem no tempo, revelando aos poucos a verdade sobre o passado da família, ao mesmo tempo em que deixa claro que o futuro não é nada agradável. Gradualmente, a cada episódio, vamos descobrindo que em Bloodline nada é o que parece. Todos têm os seus segredos e vivem suas próprias mentiras. Não há heróis ou vilões. E o final de tudo isso não tem como ser feliz.
Filmado com alta sofisticação, Bloodline carrega as imagens de tons claros, exacerbando o cenário luminoso e belo; mas a intenção é outra. O que parece claro e colorido não passa de um contraste perfeito para a série, que mostra que o que é aparente quase nunca é verdadeiro.
Chama a atenção também o fato de que os personagens estão o tempo todo suando e ingerindo todo tipo de bebida alcoólica. Pode não ser nada de mais, mas depois de 13 episódios só podemos concluir que essa seja a maneira de mostrar como as pessoas são vazias - a razão da bebida -, e como estão cansadas de serem assim, daí o suor.
No fim, Bloodline tem um ótimo gancho para uma nova temporada, que ainda não está confirmada. Espero que haja uma segunda temporada, porque a série, dos mesmos criadores de Damages, é um suspense crescente com um clima sombrio (embora o cenário seja ensolarado), que consegue prender a atenção do espectador sem subestimar sua inteligência. Altamente recomendável.

Bloodline (2015– ) on IMDb