Clássicos Modernos #7: A Vida dos Outros (2006)

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Poucos filmes conseguiram retratar com tanta maestria o medo com que todos os cidadãos da antiga Alemanha Oriental viviam todos os dias. Qualquer um podia ser alvo de vigilância ostensiva, mas a classe artística, talvez por sua sensibilidade aguçada e seu poder de comunicação, era ainda mais visada. A Stasi, a polícia secreta do Estado comunista, tinha amplos poderes para instalar escutas e câmeras onde bem entendesse, tudo pela "segurança do Estado" - leia-se, pela manutenção de um Estado onipresente na vida do cidadão.
Tendo assunto tão contundente como tema, A Vida dos Outros (Das Leben der Anderen, Alemanha, 2006) consegue impactar quem desconhecia tal realidade, ao mesmo tempo em que faz justiça a todos os cidadãos do outro lado do Muro que foram vítimas dessa violência - silenciosa, porém brutal.
O filme conta a história de Georg Dreyman (Sebastian Koch), um dramaturgo tido como leal ao Estado. Mesmo assim, ele desperta a curiosidade de Wiesler (Ulrich Muhe), um interrogador muito bem visto por seus superiores, que dá aulas na Academia da Stasi sobre como conduzir um interrogatório bem-sucedido. Wiesler desconfia que tipos como Dreyman devem ser sempre alvos de desconfiança, por causa de sua arrogância. Ele acaba convencendo seu superior a autorizar uma operação de vigilância ao escritor.
Um sujeito solitário, cujos relacionamentos não vão além dos que têm no exercício de sua profissão e que só consegue ter contato com mulheres quando contrata prostitutas, Wiesler acaba se envolvendo demais na vida de Dreyman, de tal forma que a vida do vigiado acaba sendo mais importante que sua própria. Uma cena específica é fundamental para entendermos o tamanho do envolvimento de Wiesler com seu alvo de investigação: quando Dreyman fica sabendo do suicídio de um amigo diretor teatral, que fora banido dos palcos pelo Estado, ele se senta ao piano e executa uma peça, que este amigo lhe dera de presente. A peça, chamada "Sonata para um homem bom", leva Wiesler às lágrimas, e a partir daí seus relatórios para a Stasi nunca mais trarão nada que possa incriminar Dreyman.
Dirigido por Florian Henckel von Donnersmarck (que depois cometeria O Turista), A Vida dos Outros é um dos maiores filmes alemães de todos os tempos, tendo recebido inúmeros prêmios, entre eles o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2007. A maneira como envolve o espectador em sua trama é fluida, quase natural; o elenco parece entender a importância da produção, e se entrega de corpo e alma. Merece uma menção especial Martina Gedeck, que vive a namorada de Dreyman; uma atriz talentosa que vive um assédio cruel da parte de um ministro de Estado, mas que o rejeita por amor a Dreyman - uma ação que pode ter consequências fatais.
Uma obra densa e marcante, que pode ser um lembrete a todos aqueles que, sem conhecer a história, ficam a apoiar regimes de cunho socialista, tolamente relacionando tais governos a liberdade e igualdade. Assistir A Vida dos Outros talvez seja mais esclarecedor e fundamental do que muitas aulas de história, verdadeiras doutrinações de esquerda, que vemos por aí.

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