Creed: Nascido Para Lutar | Filme de boxe honra o legado de Rocky

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É sempre assim quando Sylvester Stallone anuncia um novo capítulo da saga de Rocky Balboa: todo mundo torce o nariz, até ver o que foi produzido e derramar elogios. Foi assim com Rocky Balboa, de 2006, foi assim com Creed: Nascido Para Lutar (Creed, EUA, 2015).
Creed, entretanto, não é tanto uma sequência da série Rocky, quanto é um reboot, voltado para novas gerações terem contato com a franquia de boxe que marcou a história do cinema. Está certo que o personagem principal da série está de volta, com todo o peso do passado de lutas, vitórias e um bocado de derrotas, mas desta vez ele é coadjuvante, um trampolim para o brilho do protagonista, que neste caso é Adonis Johnson (Michael B. Jordan). Adonis é filho - fruto de um relacionamento extraconjugal - do grande campeão mundial de boxe Apollo Creed, que lutou duas vezes contra Rocky Balboa (além de um confronto que ocorreu fora dos olhos do público). Um jovem impetuoso e portador de uma raiva contra o mundo, Adonis vive a infância em abrigos para menores até ser adotado pela viúva de Creed. Já adulto, tem o intenso desejo de se tornar um pugilista profissional e se muda para a Filadélfia na intenção de ser treinado por Rocky Balboa. Embora no começo ele hesite em treinar o rapaz, Rocky aceita o desafio, como um tributo ao pai campeão. O que o "Garanhão Italiano" não sabe é que haverá uma outra luta, esta particular, que talvez ele não consiga vencer.
Dirigido por Ryan Coogler (Fruitvale Station: A Última Parada), o filme traz um fôlego renovado para uma franquia adorada por milhares de pessoas, ao apresentar a uma nova audiência um personagem icônico do cinema. É notável observar que Coogler, negro, apresenta um novo olhar não apenas sobre Rocky, mas também sobre a Filadélfia, a começar por seu herói, Adonis, cuja personalidade explosiva contrasta com o jeitão calmo de seu treinador. A ambientação da história, focada na cultura urbana negra da cidade que foi a primeira capital dos Estados Unidos, é recheada de jovens da periferia em suas motos modificadas e muros grafitados, coisa que não se via nos outros filmes da série.
Igualmente marcante é a atuação do elenco: Stallone está simplesmente soberbo. Muito à vontade no papel que o tornou um astro e no personagem que criou, o ator símbolo de uma década mostra a cada cena o semblante de quem tem uma história de profundo amor e cheia de arrependimentos. Sua vitória no Globo de Ouro pode ter sido o começo de uma jornada que termine no palco do Oscar.
Michael B. Jordan assume o peso de ser protagonista da franquia sem jamais parecer ter qualquer pressão sobre os seus ombros, e de fato não há, já que Creed foi ganhando espaço e audiência devagar, como uma produção despretensiosa, embora feita com coração. Há ainda a presença de Tessa Thompson, como Bianca, uma cantora e musicista talentosa que está destinada a ficar completamente surda; o relacionamento entre Bianca e Adonis é de uma sinceridade e transparência que não devem em nada aos grandes casais do cinema.
Além de tudo isso, há as cenas de boxe, quando a história e os conflitos internos dos personagens ganham forma e corpo dentro do ringue. Como já virou tradição nos filmes do gênero, as lutas são filmadas com as câmeras dentro e fora do ringue, contando com a narração empolgada e surpresa de profissionais da TV. É nessas cenas que Creed realmente ganha força: não há mais roteiro, não há mais nada, somente dois homens lutando. E é um espetáculo duro de se ver, regado por sangue que espirra no público, enquanto dois homens se esmurram. Não é à toa que o boxe atrai tanto a atenção de cineastas.
Por tudo isso, Creed: Nascido Para Lutar é um desses filmes que empolgam o público e criam laços permanentes com o cinema. Imperdível.

Creed: Nascido para Lutar (2015) on IMDb