Quando se entra no mundo de Westworld, série da HBO que adapta o filme homônimo de 1973, pouca coisa se explica. Vemos um cenário deslumbrante que é praticamente onipresente em quase todos os western clássicos: Monument Valley. Quem não viu nem leu nada sobre o programa vai achar que se trata de um drama de época sobre cowboys e bandidos, belas damas e prostitutas, uísque e cavalos. E, na verdade, Westworld tem todos esses elementos, mas há um detalhe: todo esse mundo antigo é um parque temático de alta tecnologia, instalado nos Estados Unidos em um futuro indefinido. Cada personagem que compõe o parque é uma inteligência artificial, programada para executar papéis pré-determinados em narrativas diversas, com o único intuito de entreter os visitantes, que pagam (muito) caro pelo direito de passar um dia ali. Em Westworld, os turistas podem fazer o que bem entenderem com os moradores do parque. O lugar é um verdadeiro playground para adultos ricos, que têm o direito de balear as IAs, ter com elas relações sexuais, arrancar-lhes os escalpos, violentá-las, ou simplesmente aceitar convites dos personagens para viverem aventuras naquele lugar, que parece infinito.
As regras desse mundo novo são apresentadas aos poucos. É como se cada episódio acrescentasse uma nova camada que aprofunda mais e mais o jogo, indo a níveis mais profundos, densos e perigosos. Nesses níveis, os personagens, sejam estes reais ou inteligências artificiais, vão sofrer as consequências de seus atos: as IAs se rebelarão, outros desvendarão segredos tenebrosos do parque, e outros... bem, outros a gente ainda não faz ideia do que vão fazer.
O filme original, uma ficção científica que fez sucesso antes de Star Wars mudar as regras do jogo em Hollywood, traz algumas dicas para tudo o que pode vir por aí, mas até essas dicas nada mais são do que palpites. Tudo pode ser diferente.
O elenco de Westworld é estrelado: Anthony Hopkins é o Dr. Robert Ford, o idealizador e proprietário do parque; Jeffrey Wright é o engenheiro que mantém tudo funcionando; Evan Rachel Wood é Dolores, a IA mais antiga do lugar; Thandie Newton é uma IA que faz o papel de cafetina na principal cidade de Westworld; Ed Harris é o visitante que decidiu estabelecer sua vida dentro do jogo, esquecendo o mundo real e buscando descobrir o que os níveis mais profundos têm a esconder; a série ainda conta com Rodrigo Santoro, Luke Hemsworth e Jimmi Simpson, cujos personagens ainda podem se desenvolver muito mais.
Criada por Jonathan Nolan e Lisa Joy Nolan, Westworld é intensa em sua caracterização e efeitos especiais, trazendo para o contexto atual todos os questionamentos apresentados pelo filme original, respeitando sua premissa sem abrir mão de levantar novas indagações para o público do século 21. Os episódios que vimos até agora têm mais perguntas do que respostas, mas isso já era esperado de um programa que pode ficar no ar por muitos anos, considerando que a série estreou com uma das maiores audiência da HBO em muito tempo.
Minha opinião sobre Westworld é bem simples: se você só puder ver uma série nova nessa fall season, escolha a ficção científica da HBO. Você não vai se arrepender.
Há muito tempo Tim Burton não entregava um filme memorável, digno de sua carreira brilhante. Desde Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, de 2003, o cineasta carecia de uma história e um universo que se encaixasse perfeitamente com sua mente doentia/genial/alucinada. 
Se eu não soubesse que O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine's Home for Peculiar Children, EUA, 2016) é a adaptação de um romance juvenil de imenso sucesso no mundo inteiro, teria dito algo do tipo "Só podia ser de Tim Burton". Isso porque o filme parece ter saído da cabeça do criador de Edward Mãos de Tesoura, tamanha a quantidade de personagens bizarramente encantadores espalhados pelas duas horas de projeção. Mas Tim Burton encontrou em Ramson Riggs, autor do livro, uma alma gêmea, alguém que claramente se inspirou em um monte de coisa esquisita e fascinante para criar sua história. Combinados com os cenários sombrios - quase todos locações reais - e com a habitual fotografia soturna/onírica do francês Bruno Delbonnel (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), personagens e roteiro conseguem levar o público a uma imersão gradual no universo fantástico proposto pelo filme.
A trama é protagonizada por Jake (Asa Butterfield), um adolescente que se vê como um deslocado no mundo. Sem nenhum amigo, Jake cresceu ouvindo histórias fantásticas de seu único parceiro de conversas, seu avô Abe (Terence Stamp), sobre um orfanato milagroso, habitado por crianças invisíveis, mais leves que o ar, dentre outras habilidades, e dirigido pela enigmática Srta. Peregrine (Eva Green), cuja habilidade mágica é a de se transformar em aves. Depois de testemunhar a morte do avô em circunstâncias misteriosas, Jake lê um cartão postal vindo do tal orfanato e resolve seguir o conselho de sua terapeuta: viaja até o País de Gales, onde fica o lar, em busca de respostas. Quando finalmente encontra o Lar das Crianças Peculiares, o jovem descobre que todas as histórias que ouvia quando criança eram verdadeiras. O orfanato da Srta. Peregrine não somente é real, como todas as crianças peculiares continuam na mesma idade, graças a outra habilidade da diretora: a de criar um loop temporal em volta do orfanato, o que faz com que todos dentro do loop vivam o mesmo dia todos os dias, sem jamais envelhecer. Contudo, como já se espera, toda a vida bucólica dos órfãos da Srta. Peregrine está ameaçada pelos Etéreos, um grupo de seres dedicados a caçar as crianças peculiares, liderados por Barron (Samuel L. Jackson). A partir daí, cabe a Jake descobrir a verdade sobre sua origem e qual é seu destino.
A mistura de Harry Potter, X-Men, Star Wars e tantas outras referências da cultura pop funciona bem durante quase todo o filme. O estabelecimento das regras do universo dos peculiares é verossímil e eficaz, e os dois primeiros atos conseguem captar a atenção do público com eficiência. Mas é no terceiro ato que a coisa começa a degringolar. Justamente quando todo o conflito com os Etéreos caminha para sua solução, com a esperada luta final dos Peculiares contra seus antagonistas, o filme parece apressar os eventos, e acaba entregando uma conclusão que, embora divertida, não é empolgante o bastante. Além disso, o vilão vivido por Samuel L. Jackson é quase o mesmo personagem que ele viveu em Kingsman: Serviço Secreto, com todos os mesmo trejeitos e piadas que, afinal de contas, são marcas registradas do próprio Jackson, não de algum personagem específico, e isso estraga um pouco a tarefa de suspender a descrença do espectador.
Mesmo assim, O Lar das Crianças Peculiares ainda é uma boa opção de diversão para a família, embora crianças menores podem se assustar com algumas cenas mais gráficas e realmente assustadoras. O filme é Tim Burton voltando a contar uma boa história, ainda que precisando retomar a genialidade que lhe permitiu criar Peixe Grande.